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A MATRIZ DO ROSÁRIO DE CAIRU Alinhamentos Históricos

  • Foto do escritor: Antônio Isaías Ribeiro
    Antônio Isaías Ribeiro
  • 8 de out. de 2021
  • 3 min de leitura

Desde o relato histórico de Pero Lopes de Sousa, passando pelos registros do Arquivo Geral das Índias (Sevilha, Espanha) e Torre do Tombo (Porto, Portugal) levantados por Coelho Filho(¹) e percorrendo todo o século XVI, as próximas referências históricas que se encontram, apenas tangenciam as ilhas do arquipélago de Cairu. Uma, de 1537, trata da chegada e desembarque de Francisco Romeiro, lugar-tenente do donatário da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, de que “começa a povoar sobre o Morro de São Paulo”; outra, de 1545, que aponta o Morro de São Paulo como “a única povoação existente em toda a capitania de Jorge de Figueiredo Correa naquele ano”; a terceira, apenas tangencia a Ilha Cairu. Tal referência se acha no Tratado Descritivo do Brasil, de 1586/87, do cronista Gabriel Soares de Sousa, ao mencionar a existência de uma igreja de construção bem consertada”, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, na Vila do Cairu.


“...No interior da Bahia uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, anterior à de Salvador, que é de 1586”. (²)


Ora, no imenso interior da Bahia não restaram conhecidas, vindas do primeiro século, o século XVI, edificações maiores ou mesmo igrejas, senão em pontos bem destacados do litoral, os quais se acham na região de Porto Seguro, em todo o perímetro da Baía de Todos os Santos e territórios limítrofes e neste espaço entre baías, o Baixo Sul, mais exatamente onde está o conjunto de ilhas do município de Cairu. Embora Alencastro(²) não situe a localização da Igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário no interior da Bahia, anterior à do Pelourinho, de Salvador, tal Igreja não deve ser outra, senão a mesma “igreja de construção bem consertada” vista por Gabriel Soares de Sousa em 1586/87 e anotada em seu Tratado Descritivo. Temos, portanto, um espaço superior a 40 anos, um vazio histórico, do qual se conhece apenas que em 1565 o terceiro donatário da capitania de Ilhéus mandou fundar as três vilas do norte (em relação a Ilhéus): Boipeba, Cairu e Camamu.


A Igreja dedicada pelos portugueses a nossa Senhora do Rosário, em Cairu é, portanto, originária do século XVI. Ela surge completando junto com o casario do núcleo urbano original um sítio histórico rico de cores, formas barrocas e neoclássicas que dão um charme todo especial à sede do município. Como está descrito no memorial do projeto de sua restauração de 2010/2012, ela possui elevado valor monumental, dada sua história e peculiaridades arquitetônicas. A sua “planta é em cruz, e recoberta por telhado com terminação de beira-seveira, uma característica dos antigos monumentos da época. A fachada é emoldurada por cunhais, terminados por coruchéus embrechados, e cornija encimada por frontão curvilíneo. Portada com frontão partido em cantaria, com esquadria almofadada. Cercaduras de arenito nos demais vãos. A Torre é situada do lado esquerdo recoberta por terminação piramidal revestida de embrechados. O interior apresenta forros com cantos arredondados na nave e capela-mor, nesta última com medalhão da padroeira, e em abóbada de madeira, nas capelas. Os arcos do cruzeiro e do transepto são feitos em arenito, pintado a óleo. A pia batismal, os lavabos e conversadeiras da sacristia são em cantaria. Os altares são de talha neoclássica. Entre as imagens destacam-se as de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Dores, São José, São Miguel, e um crucifixo em madeira com detalhes em pedraria e prata. Do mobiliário, merece referência um armário de nove gavetas, esculpido em madeiras nobres, situado na sacristia esquerda”.

O início de sua construção pode ser datado do último quarto do século XVI, entre os anos 1560 e 1580. Seria assim, a segunda edificação mais antiga das Américas, dedicada a Nossa Senhora do Rosário. A primeira está em Vila Velha, ES, informação confirmada por Magali Oberland, (³) em visita técnica aos trabalhos de restauração em 2011/2012, durante os quais foram encontradas peças de vários períodos artísticos, destacando-se uma imagem barroca, que pode ser a única do Brasil. A imagem foi encontrada no interior de uma das paredes falsas da sacristia.


Estes são alinhamentos históricos que resumo e que me parecem muito indicativos de que em 1608 ou 1610 Domingos da Fonseca Saraiva e sua esposa Dona Antónia de Pádua de Góes além de começarem a construir um engenho e a primitiva capela de Santo Antônio, na mesma localização aonde se deu mais tarde a edificação do Convento, possivelmente reconstruíram também a pré-existente Capela de Nossa Senhora do Rosário, ou seja, aquela “igreja de construção bem consertada”.


Antônio Isaías do Rosário Ribeiro*




(¹)Luiz Walter Coelho Filho, Pesquisa publicada como acervo documental do seu livro A Capitania de São Jorge e a Década do Açúcar.

(²) Luiz Felipe de Alencastro, O Trato dos Viventes

(³) Magali Oberland, museóloga e restauradora (UFRJ)

(*) Economista, natural de Cairu





 
 
 

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